"Confiança por certeza"
"Entrega por garantia"
"Caminho por verdade"
"Confiança"
Toda a tradição ocidental se vai marcada pela procura e expressão do conceito exato sobre o que são as coisas, "a coisa em si", o mundo e a vida. No pensamento cristão estas expressões se mostraram como nunca na idade média através da escolástica e também após a reforma protestante, com a primeira geração pós Lutero na ortodoxia protestante. Nos dois casos importa o correto pensamento, a correta expressão do conhecimento de Deus.
Estas expressões são por assim dizer, dicotômicas, partem corpo e pensamento e cindem experiência e vida, fatos e afetos. É como um discurso aristotélico, baseado em tópicas às quais os argumentos precisam se encaixar, se conformar se amoldar. Temos assim um modelo, um padrão a qual todos precisam se enquadrar.
O texto de São Marcos 9.24, possui um trecho que diz assim: "Ajuda a minha incredulidade". O pai em desespero, frente à angústia de seu filho, simplesmente confia, descansa no cuidado. Não possui certezas, saberes ou mesmo uma fé segura, mesmo assim ele confia se lança aos cuidados e se permite a dúvida, a fragilidade, a incerteza dos humanos. É curioso que não foi uma fé inabalável que lhe garantiu a graça, mas a confiança na pessoa de Cristo. Confiança tal que lhe permitia, na ausência das certezas, confiar.
Não confiamos por que temos certeza, na verdade na presença desta, para que confiar, a certeza basta por si mesmo, confiamos pelo que sentimos, pelo modo pelo qual somos afetados, confiamos à medida que permitimos que afetos outros possam passar e assim potencializar novas experiências de vida. Só assim é possível apesar do medo, caminhar no desconhecido. Confiando é que encarnamos o novo, o mistério o que não era ainda.
"Entrega"
É humano, é nosso, nos constitui o medo pelo desconhecido. Basta uma singela observação de nossas vidas e rapidamente encontraremos muitas rotinas, lugares comuns onde guardamos um pretenso controle sobre a vida. Não somos assim tão livres e aventureiros, temos cada um de nós seu punhado de garantias.
Para confiar será preciso descrer das garantias, abrir mão da reconfortante ilusão do controle. Hipócrates já dizia que "não passamos duas vezes pelo mesmo rio", ainda que aquela dada configuração de figura e fundo nos ofereça uma "real", situação onde a vida se repete. A vida nunca se repete, e menos, parafraseando Marx, que seja uma farsa.
Imagine que garantia tinha Abraão quando saiu de sua terra? Foi para um lugar que lhe seria mostrado, Noé ao construir a arca e Deus quando enviou seu filho? Eram destinos certos ou possibilidades que se fizeram.
Gostamos de carregar conosco muitas garantias e são elas, as garantias de felicidade, sucesso e prosperidade que mais nos impedem de simplesmente nos entregar. Entregar ao que sentimos, ao que deseja encarnar-se, tornar-se realidade. Sem entrega só viveremos o que já é o que já foi sempre, na ilusão de que tudo é ainda a mesma coisa. Confiança gera, indubitavelmente entrega.
"Caminho"
Jesus disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Acho que é justo dizer que esta frase guarda um silogismo bem simples: A=B, C=B, logo A é C. Ou seja, não é nenhum reducionismo dizer que Caminho, verdade e vida são equivalentes.
Hoje quando preparava o jantar, macarrão com brócolis à bolonhesa, me ocorreram estas idéias e sentimentos. Refletindo me ocorreu que as séries de TV, bem como filmes e novelas, garantem muito de seu sucesso pela necessidade que temos de descobrir a verdade. Em geral estas séries guardam em comum, que todas possuem algo a ser descoberto. Como um pode de ouro a ser encontrado no final do arco-íris.
O que em geral não percebemos é que lá, no final não há arco-íris , ao menos não no final das séries, ressentemente assisti a uma delas e percebi que o durante foi muito melhor que o fim. O valor das coisas não está no desfecho, mas no desenrolar de cada uma delas, é no durante, no processo, no caminho.
O Caminho neste sentido, quando penso na pessoa de Cristo, na fé, nestas coisas prefiro olhar a partir da metáfora do caminho, pois se há uma verdade, penso que esta é o caminho. No caminho as coisas não estão dadas, não há garantias, não há destinos certos, planos traçados, apenas uma direção.
No caminho somos modificados pelos encontros, encontros que não estão dados, são encontros produzidos na relação com a incerteza, com a multiplicidade de possibilidades. Penso que esta é uma boa maneira de levar a vida, a fé. Na relação e interação com o que encontramos no caminho. Para isto será preciso se destituir da razão, da objetividade, da obrigatoriedade de um destino certo para que operando um corte com a indiferença, com a anestesia de toda garantia e certeza, podermos nos afetar, sentir o que pede passagem, o que espera ser criado, vivido e experimentado
Termino este breve devaneio com palavras de São Paulo: Peço não conformar, mas transformar, pela renovação da mente.
Pierre Monteiro .
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